Bela iniciativa

O carro com quatro jovens vestidos de preto dentro estaciona devagar na comunidade de Santo Amaro, bairro pobre da periferia de Recife, a capital mais violenta do Brasil. As portas se abrem com discrição e os quatro saem do carro, um deles com uma lata de tinta, o outro com um molde nas mãos. São cinco e meia da manhã, horário em que milhares de trabalhadores começam a se dirigir para os pontos de ônibus – e nesta comunidade não é diferente. À medida que andam, os quatro jovens cumprimentam operários, manicures, empregadas domésticas, balconistas e borracheiros.

Por uma infelicidade de toda Pernambuco, estes quatro jovens jornalistas já são conhecidos: são os autores do blog Pernambuco Bodycount (em inglês, contador de corpos de Pernambuco), que desde 1º de outubro assumiram uma missão: em cada local de homicídio de Recife, desenhar um corpo, com tinta vermelha, para que os crimes jamais caiam no esquecimento. Já pintaram, até a sexta-feira, dia 26 de outubro, nada menos que 56 – média superior a um corpo por dia. É uma cidade onde, em janeiro deste ano, 480 pessoas morreram assassinadas a tiros.
As perspectivas são trágicas: com dois anos de trabalho, se o ritmo de crimes continuar, possivelmente Recife terá mais de 5 mil desenhos de corpos de pessoas assassinadas espalhados por suas ruas. “A gente quis tirar da Internet, que é um meio de elite, e levar o PE Bodycount para a população excluída, que mais sofre com a violência. Para isso surgiu o Marcas. E estamos sendo maravilhosamente recebidos em todas as comunidades onde trabalhamos”, diz o jornalista Eduardo Machado, que com os repórteres João Valadares, Rodrigo Carvalho e Carlos Eduardo Santos, todos do Jornal do Commercio, faz o terrível trabalho artístico pelas ruas da capital pernambucana. Quem acompanha o grupo é o fotógrafo Rodrigo Lobo (vale muito a pena conferir o FlickR de Rodrigo, muito bom fotógrafo).

A cada desenho, uma história. No segundo fim de semana de trabalho, tiveram mais uma prova do que sempre defenderam: que a questão da violência em Pernambuco não passa pelo crime organizado, e sim pelos parâmetros comportamentais do nordestino – cabra macho, sim, senhor. Em Santo Amaro, três jovens encostaram de carro na calçada em frente a um boteco e pediram uma cerveja. A bebida veio, com uns tira-gostos. Abriram então duas portas do carro e colocaram um CD de música baiana, bem animada. Nenhum dos freqüentadores do bar reclamou – muito menos moradores do quarteirão, que já sabem da realidade: não se reclama dos outros no Recife. Curiosamente, muitos dos outros clientes do bar começam a ficar animados com a música. Um deles se aproxima dos jovens e pede que o volume seja aumentado. Como já eram mais de 22h, o dono do veículo se recusa.É a senha para a violência: contrariado com a negativa, que considerou uma “má-educação”, o cliente do bar, embriagado, chama mais dois comparsas, vai em casa, perto dali, pega três armas, volta e assassina com brutalidade os três jovens dos carros. Por causa de uma música baixa demais.


“A noção que nós temos aqui é de que a vida não vale nada”, diz Eduardo, com a voz amarga. “Aqui não tem pistola, não tem fuzil, não tem traficante. É a terra do 38, tudo se resolve à bala”. Na mesma semana, no bairro Alto do Maracanã, Zona Norte do Recife, os quatro contam no blog que Zaqueu, um serralheiro de 60 anos, viu o filho de 30 ser assassinado na mesma rua onde cresceu. Ao se dirigirem ao local da morte, um morador pegou o pincel das mãos de Eduardo e pintou sozinho o chão de vermelho para marcar a morte do amigo. O pai, Zaqueu, não saiu de casa, mas deu autorização aos jornalistas para que fizessem a pintura. Enquanto isso, a cena que emocionou o grupo: o morador anônimo que tomara o pincel começava a chorar. Mas continuou pintando, diante dos moradores. No fim, disse aos quatro jornalistas que já havia três marcas na região onde mora, no bairro de Dois Unidos. As marcas já eram uma realidade. O grupo está quase virando celebridade, embora façam o possível para não se deixarem banalizar. Banal é a violência. Os cinco rapazes de camisa preta (“Vamos todos com a mesma, escrito Marcas da Violência”) estão quase se tornando uma grife. Sem nenhum glamour – apenas tragédia.A Secretaria de Defesa Social faz de tudo para diminuí-los. Em vão. Logo no começo do blog, veio um feriadão e eles deram o bodycount: 54 mortos em três dias. Três dias. Em uma capital brasileira e cidades em torno. “Demos o número, demos os nomes e locais de cada um dos mortos. Pegaram os nomes, e divulgaram que três deles não tinham sido assassinados. Um atropelado, um por afogamento e o terceiro por choque elétrico”, conta Eduardo. “Nos contestaram num sábado pela manhã. João estava de plantão, e nos dividimos: eu fui para o local do choque elétrico, os dois restantes para o afogamento e o atropelamento, em zonas mais distantes de Recife. Do atropelado nós conseguimos o atestado de óbito: três tiros”. Neste ponto da entrevista eu pensei que o governo socialista de Pernambuco deve ter achado que as balas de revólver eram fabricadas pela Volkswagen. Eduardo prossegue e acerta o que eu pensei: “Colocamos no blog uma manchete: ATROPELADO POR TRÊS TIROS”.
As duas partes do curtametragem sobre o projeto Marcas da Violência:
Rodrigo Carvalho, que é pauteiro do Jornal do Commercio de lá, também se sente desiludido em relação à violência em Recife. Ele e Eduardo fecham questão: ali, sim, em Recife era caso de chamar a Força Nacional de Segurança Pública. “São muitos motivos, e ao mesmo tempo um samba de uma nota só. O homicídio dá origem a outros. O cara perde o pai, mais tarde será assassino ou será vítima também”, lamenta. Apesar de não haver (ainda) a figura do traficante de fuzil na capital pernambucana, as drogas já estão em um estágio avançado: o maldito crack já assola as comunidades carentes de Recife, deixando sua trilha de morte, sangue e vício incurável. Quem se vicia, assalta, rouba. E cria mais barbárie, nas favelas recifenses. “Esta semana”, conta Rodrigo, “mataram um menino de 17 anos, cortaram a cabeça e escreveram com faca nas costas dele, cortando: ‘ladrão’”. Rodrigo reconhece que cada bairro carente tem seu grupo, que há uma falência total do Estado e das instituições. “Quem quer resolver algo tem que estar disposto a matar. Junte-se a isso a disponibilidade da arma e a total desvalorização da vida, e o resultado é catastrófico”, conta Rodrigo. O resultado é este: a triste terra do 38.
P.S. – No Santa Bárbara e Rebouças o mesmo texto, mas com o comercial que eles fizeram depois de ganhar o Prêmio Vladimir Herzog de Internet.

“Ações como esta, é que nos fazem repensar nossas atitudes, e nos faz sentir uma vontade de ajudar também, para que essa vioência acabe, pois ela está em todo o Brasil, e se cada um fizesse a sua parte ja seria um grande começo, parabéns à esses três jornalistas de Pernambuco.”
Matéria Por: InterNey

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: